anda sendo bem difícil para mim. pra todo mundo, na verdade. se você olha o jornal, você se preocupa. mas você já viu a reação do público em geral ao ver um jornal? mais preocupante ainda. a reação de uma pessoa ao receber notícias de maneira geral é crucial pra entender ela: o quão mais irrelevante uma notícia for, melhor ela é - portanto, quem reclama da irrelevância de uma notícia, geralmente quer que o mundo pegue fogo só pra ela mesma poder comentar. isso fica bem claro assim que você entra no twitter ou na seção de comentários do g1.
eu ando muito desolado ultimamente, principalmente porque eu gostaria de ver mais notícias "irrelevantes" no jornal. de que me adianta ver a desesperança do mundo? golpes de estado, vigilância extrema, ataques terroristas, fome, miséria e tristeza? eu não vejo nem filme de terror, pra você ter uma noção da mente perturbada que eu tenho. eu tenho a certeza absoluta que se eu for pra guerra, eu volto igual aqueles veteranos malucos com transtorno de estresse pós-traumático. se eu ver muito filme de terror, eu fico tendo pesadelo. meu cérebro é uma máquina de transformar tudo o que eu vejo em uma versão 30x mais hardcore.
e isso não serve só pra filmes de terror, ou pro pessimismo adquirido após ler o jornal. pode ser em coisas que eu goste também. uma vez, eu fiquei viciado em sudoku. vi-ci-a-do. tanto que eu, quando fechava meus olhos, via jogos de sudoku com os numerozinhos faltando pra eu completar. depois do sudoku, foi a sinuca - e aí eu ficava imaginando situações numa mesa de sinuca só pra minha mente dar um jeito de resolver. o meu jeito natural de ficar bom ou aprender coisas em geral é por meio de uma obsessão extrema que vai tirar a minha paz. mas me dá algo em troca, então, tudo bem também.
tenho tido uma obsessão em observar. não que eu não estivesse observando muito durante os últimos 20 anos da minha vida - mas é uma contemplação diferente. eu tenho me tornado cada vez mais uma pessoa diferente. e não teria como deixar de ser, como diria heráclito.
eu ando cada dia em lugares mais diferentes. não lugares novos. lugares em que eu não estava antes, pra perceber cada detalhe, cada pequena coisinha. olho todo dia os ratos e as corujas da minha rua. a vida desses ratos é tipo uma olímpiada mortal do faustão. no meio da chuva, o rato tem que sair do bueiro onde mora, pular todos os buracos para molhar menos as patas, fugir das corujas que tentam pegar ele e chegar no container de lixo - onde ele vai se entupir de comer porcaria. e depois fazer o caminho de volta do mesmo jeito.
eu moro do lado de um puteiro e um butequim. na frente do bordel eu vejo um monte de mulheres horrorosas e homens mais feios ainda, sorrindo e tirando as carteiras de seus bolsos antes de subirem as escadas acompanhando as moças. no butequim, um senhor para e fica lá o dia inteirinho, recolhendo as apostas do jogo do bicho. eu amo apostas, mas nunca joguei no bicho, ninguém nunca me ensinou como faz. e ele sempre me vê passando pra ir fumar.
o resto dos usuários de drogas, moradores de rua, prostitutas, senhoras desamparadas, trabalhadores cansados e abstinentes passam por mim toda vez pedindo um cigarro, que eu dou com muito gosto. não gosto quando pedem um trago, até porque eu mal divido tabaco com meus amigos e vou deixar um total estranho babar no meu cigarro? também não é assim. tudo, TUDO tem limite.
a minha casa é lotada de amortecedores. tudo na minha vida tem aumentado em amortecimento. as portas não batem, fecham calmamente. a gaveta também não bate. a porta da geladeira é silenciosa, o chuveiro também. eu ando de BRT e a rua recém asfaltada vai bem calminha, como se nem fosse ônibus. pego um ônibus novo, o ar condicionado ainda funcionando e mesmo na chuva, não fica abafado. amorteço meus caminhos.
consigo sentar na cadeira e fico ali tranquilo. mesmo no cenário mais distópico, toda vez que eu paro e sento pra fumar um cigarro na parada de ônibus tudo dá certo. as contas batem. a minha cama também tem um amortecedor. dormi pesado, acordei no susto, minha família perguntou com o que eu tinha sonhado depois de me verem rolando e lutando enquanto dormia. não soube responder e mesmo que soubesse, também não responderia. eu venho amortecendo tudo. até os meus sonhos.
amorteço a minha vontade. me dobro à minha limitação material e à minha limitação imaterial. não tenho nenhum problema com a falta de privacidade, respeito e dinheiro. não venho tendo nenhum problema com mais ninguém, porque não quero e também não tenho tempo. o tempo vêm passando cada vez mais rápido e o meu está acabando, e logo logo eu vou ter que parar de amortecer. mas até lá, eu vou bater as minhas gavetas. e não vou ouvir nada.