interzona

algumas das minhas experiências psicodélicas

 

"se deus tomasse ácido, será que ele veria pessoas?"

George Carlin  

 

"não tome LSD a não ser que você esteja bem preparado, a não ser que você esteja especificamente preparado para sair da sua mente. não tome a não ser que você tenha alguém bem experiente com você para te guiar. e não tome a menos que você esteja pronto para ter sua perspectiva sobre si e sua vida radicalmente mudadas, porque você vai ser uma pessoa diferente, e você deve estar pronto pra encarar essa possibilidade"

Timothy Leary

 

juntei essas duas frases para colocar de epígrafe só porque eu acho conveniente botar a importância da coisa. a experiência de usar um alucinógeno é mista. uma parte da população vê o uso de drogas como LSD como papo de maluco, coisa de doido que quer ficar rindo vendo coisa por aí. coisa de jovem místico. e a outra parte da população vê o uso de drogas como essa como uma possibilidade de ver outro mundo - enxergar as coisas escondidas, poder se comunicar com o absoluto e sentir revelações, falar com Deus e voltar uma pessoa totalmente diferente. esses, geralmente, são os jovens místicos.

a minha perspectiva sobre o assunto é uma mistura das duas coisas. veja bem: eu não acho que o uso de LSD necessariamente vá te transformar em uma nova pessoa. nem em uma pessoa melhor, também - embora de todas as drogas recreativas, eu acho que é uma únicas que pode te tornar uma pessoa melhor. é uma forma que você compreende coisas de uma forma diferente, se conectar mais com a natureza e sentir, sentir emoções e sensações em um tipo de êxtase puro, que é como se alguém tivesse fazendo carinho em cada neurônio seu. eu não acho, porém, que ele vai te fazer falar com deus. ou ver deus. ou qualquer sinal do absoluto - aí eu realmente acho que seja lombra. 

longe de mim querer duvidar de todo mundo que tem alguma experiência de conversar com deus ou algo assim. é só por uma questão lógica e um pouco de ceticismo. porém, de fato, o lsd é uma coisa fascinante!

os efeitos do LSD são, e não podem ser expressados em outras palavras, impressionantes. você começa com um bocejo inexplicável. um bocejo que não vem com sono. de repente, tudo começa a ficar um pouco engraçado. e vai ficando mais e mais engraçado. e logo, as coisas começam a ficar um pouco mais diferentes: as texturas dos objetos mudam e começam a dar uma aparência de derretido. não é como se você de repente saísse da realidade. é como se a realidade começasse a lentamente mudar pra você. de repente, os objetos que são sólidos parecem entrar em estado líquido. você segura o objeto e sente a solidez, mas ele simplesmente parece líquido.

e daí pra depois, é só ficar observando as coisas ficarem mudando e ficando lindas na sua frente. ouvir uma música boa - principalmente se o artista também tiver usado um ácido pra fazer a música. se você for muito longe, tem uma hora que as coisas simplesmente ficam difíceis demais de reconhecer e você fica realmente doido, mas é divertido. tudo fica sambando, se mexendo. você vê e pensa em coisas que não pensaria nunca. é uma experiência. toda vez é uma experiência.

com isso, eu quero contar algumas das vezes das quais eu tive essa experiência. 

***

primeira e segunda experiência com cogumelos

sempre tive curiosidade pra tomar algum alucinógeno. desde bem pequeno inclusive, e olha que eu fiz proerd e tudo. é que eu sempre fui fã da psicodelia, dos hippies e bichos-grilo do mundo. sempre falei: eu? usar droga? jamais! mas pra mim, ácido não é droga. pois bem: eu ainda era menor de idade e decidi que ia ter essa experiência. mais especificamente porque eu conhecia um rapaz que estudava na minha escola e tinha me contado sobre a experiência dele com cogumelos. e que pasmem! era barato. não exatamente barato, mas o suficiente para que eu pudesse comprar.

falei pra ele arrumar pra mim e ele me trouxe. um dia ou dois dias depois, decidi fazer a experiência. no mundo dos cogumelos, existem várias técnicas envolvendo o uso, né? tem gente que tritura. mistura na comida, mistura na bebida. faz whey, microdose, mistura com limão. eu achei tudo isso coisa demais - porra, não tem como ser mais simples? quando fica muito fácil, as pessoas gostam de complicar demais. eu só comi mesmo. a textura é meio nojenta, porque era daqueles desidratados, igual uma tripa seca.

o gosto pra mim era bom. lembra tipo uma pipoca doce daquelas prontas, que vem em saquinho e tem de monte na época de festa junina, sabe? é tipo uma pipoca daquelas com um toque de chimichurri. pode fazer e provar as duas coisas. eu atesto que é o mesmo gosto.

pois bem: saí de casa esse dia, fui chamado pra algum rolê de adolescente quando eu ainda gostava de sair de casa. depois de uma hora de efeito do cogumelo, que é justamente quando começaram os efeitos. pra mim, saí de casa e o mundo ficou lindo. no momento que eu tava indo pro metrô, o chão começou a derreter.

depois que eu entrei no metrô, comecei a pesar o clima na minha cabeça. porra, primeira vez usando droga desse jeito, 16 anos na cara, e eu decidi logo entrar no metrô em horário de pico. uma experiência claustrofóbica onde eu não estava só no meio da lata de sardinha, mas eu estava começando a viajar enquanto eu estava lá, parado, tentando parecer sóbrio o máximo possível. toda hora eu começava a rir sozinho e depois parava, pensando "para, porra. todo mundo vai sacar que ce ta DOIDÃO".

era época do besouro. e da formiga voadora, os aleluias. pois bem: depois de chegar onde eu tinha que ir, esperei uma outra pessoa que falou que tava chegando na estação e ia pro mesmo canto que eu. enquanto isso, fiquei sentado, estatelado em mim mesmo sentado na estação de metrô de águas claras, onde é aberto - e na época dos bichos voadores, eles vão pra todos os lugares. normalmente, eu teria me esquivado dos bichos. mas eu sentei no metrô pra esperar e decidi ficar por lá. e aceitar. nesse momento, fechei os olhos e senti cada um das dezenas de insetos que começaram a subir em mim. virei o homem aleluia. eu amei.

em outra experiência que não ocorreu muito tempo depois, arrumei outro cogumelo - esse que tava muito mais feio e fudido. sabe quando ele já tá oxidado ao ponto de parecer aquelas fruta podre? mas não se enganem - não é porque tá assim que parou de funcionar não. comi outras 2 gramas desse negócio e fiquei viajando legal. por muitas horas. 

eu via as coisas derretendo levemente... ouvia e pensava em músicas inventadas na hora, tudo fruto da imaginação de um improviso eterno na minha cabeça... teve até uma hora que eu tava conversando com uma guria de olhos claros, e enquanto a gente conversava, a pupila dela simplesmente se dividiu em duas. fez mitose - pum! duas bolinha preta no olho. foi só eu olhar de novo que voltou ao normal... mas foi bem interessante.

na volta pra casa, de novo psicodelia no metrô. o chão de plástico do trem parecia sambar e o som dos trilhos, na minha cabeça, cantava "A Love Supreme" do John Coltrane. foi incrível. quando cheguei em casa, eu nem reconhecia o ambiente. foi como chegar em um lugar novo. fiquei vendo coisa e fui dormir tranquilinho. 

primeira experiência com ácido

era num sábado. cheguei em casa na sexta às 23h57, voltando da minha última aula da primeira semana na faculdade. dia 15, meia noite, comemorei meu aniversário de dezoito anos. quando deu 00h05 ou algo assim, tomei a minha primeira dose de lsd. 1 gota de ácido (que em forma pura assim é diluído em álcool até que 1 gota seja o equivalente a um "quarto", 120µg ou algo assim) pingada em uma pastilha valda.

meia noite vai passando, saí pra comprar e comer um hambúrguer, era meu aniversário, oras. voltando pra casa já senti que as luzes estavam tremendo um pouco. comecei a bocejar e não entendia o porquê. quando fui entrar no meu prédio de volta percebi o primeiro efeito colateral - esqueci como entrava no prédio. passei 5 minutos redescobrindo como eu abria a porta da entrada.

depois disso, fui pra casa, comi meu hambúrguer e parei. olhei pro teto e pá - como mágica, o teto começou a levemente derreter. não só isso, todas as paredes e outras coisas sólidas com algum tipo de textura começaram a derreter. é incrível presenciar isso pela primeira vez. aí, depois de ficar algum tempo olhando o teto e as paredes, comecei a ver televisão pra passar o tempo um pouco.

sinceramente, o jeito IDEAL de se ver televisão é dropando um ácido. como mais você pensaria objetivamente e ao mesmo tempo se divertiria com a programação? eu assisti uma reprise de novela e fiquei rindo sobre como parecia que a novela inteira era uma desculpa para botar propaganda subliminar no meio. duas personagens conversando e uma solta "mas você sabia que os benefícios do banco do brasil alavancariam as vendas da sua empresa?" e elas têm uma conversa INTEIRA que é propaganda. assim fica fácil fazer 6 meses de novela. 

não só isso, mas durante esse tempo vendo TV no ácido, eu me peguei analisando a lógica da propaganda do mercado livre com o marcos mion. e eu fiquei ABSOLUTAMENTE APAVORADO. você já viu essa propaganda?


absoluto horror. primeiramente, a van que eles estão dirigindo literalmente voa no meio da tela, o que me gerou preocupações sobre segurança no trânsito - e não só isso, mas o jeito que a moça ao lado do marcos mion segura no volante me dá um pouquinho de agonia; segundamente, ele chama a van de "vanzola". acho que eu passei 30 minutos rindo desse comercial.

depois disso, eu comecei a criar os meus próprios motivos de risada... comecei a ter ideias mirabolantes e absurdas, das quais eu provavelmente ri por mais horas e horas. uma dessas ideias foram os "lulitos". os lulitos, equivalentes às 'paquitas' da Xuxa, seriam os dançarinos profissionais que acompanhariam o presidente Lula em todos os eventos oficiais e diplomáticos. e no meu sonho de ácido, eu conseguia ver claramente Lula assinando o tratado da paz mundial com o Trump de um lado, o Putin de outro e todos os lulitos atrás dele fazendo break dance. eu ri por mais uns 30 minutos só pensando nos lulitos.

outros pensamentos malucos meus incluíram a ideia de comerciais de TV que exibissem um fundo de radiação cósmica. no mesmo mês dessa viagem, eu tinha tido uma aula na faculdade em que minha professora tinha citado o termo "radiação cósmica de fundo", que se trata de um tipo de onda captado por cientistas que se trata de uma "radiação fóssil", um resquício de energia que supostamente teria sobrado do Big Bang - e que seria parte do que captamos ao ligar uma televisão analógica a um canal sem sinal. sabe quando isso acontecia? e aí fica aquela tela cinza e um chiado insuportável? parte do sinal do chiado é a tal radiação cósmica de fundo.

a minha ideia, por tanto, com a intenção de fazer com que os comerciais fossem uma maneira de também nos sintonizarmos AO UNIVERSO, seria de simplesmente misturar as duas coisas. o negócio é que eu não lembrava se o som ou o vídeo que continham a radiação, então eu fiquei um tempão discutindo sozinho se "é melhor o vídeo cinza com o áudio das propagandas ou as propagandas passando com um chiado alto no fundo?"